segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A Maravilha do nosso século



A fotografia já era conhecida, sendo publicada em meu livro na página 384. Contudo, a foto acima está em melhor definição, de corpo inteiro. Foi tirada em Havana, Cuba, no ano de 1860, após um período conturbado vivido no México, de onde Agostini fora deportado. O fotógrafo nomeou o retrato como "La Maravilla de Nuestro Siglo", vendendo-a como souvenir para os admiradores do peregrino. A Tau franciscana, no lado esquerdo do manto, demonstra de onde vinha a espiritualidade do eremita. A fotografia foi preparada em estúdio.
Fonte: http://pogphotoarchives.tumblr.com/image/79369211167 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A FAMÍLIA AGOSTINI NA AMÉRICA


Recentemente, ao apresentar meu livro em um evento em Caxias do Sul, alguns historiadores italianos ficaram surpresos ao me escutar. Esse interesse era para saber se o eremita João Maria de Agostini, personagem de meu livro, era parente de um missionário religioso que explorara a América do Sul no início do século XX: o nome desse italiano era Alberto Maria de Agostini, coincidentemente originário da mesma região que João Maria. Além disso, Alberto Maria, que era Salesiano, tinha por irmão (mais velho) Giovanni de Agostini, o fundador de uma das mais antigas casas editoriais da Itália, hoje uma multinacional bastante conhecida.

Alberto Maria de Agostini, nascido em 2 de novembro de 1883 na província de Novara (Piemonte), veio para a Argentina na década de 1920 para trabalhar como missionário religioso. Atuou, principalmente, na região da Patagônia chilena e argentina, sendo reverenciado e lembrado até hoje. Foi explorador, geógrafo, fotógrafo e cineasta, realizando várias filmagens de povos indígenas da Terra do Fogo. Faleceu em Turim em dezembro de 1960.

Resta, agora, investigar qual era o grau de parentesco entre o "famoso" monge João Maria, ou O Eremita das Américas, com esse outro missionário. Por serem da mesma região, mesmo sobrenome e mesma índole religiosa, é muito provável que exista, sim, parentesco. 

Alberto Maria de Agostini ao lado de um índio na Patagônia argentina (consultar em: http://www.viaggipolari.it/it/)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

OS MANUSCRITOS DO EREMITA DAS AMÉRICAS

Ao final de sua vida, por volta de 1864, quando estava morando no alto do Cerro Tecolote, norte do Novo México, o eremita italiano João Maria de Agostini tomou a decisão de contar suas experiências para alguém de confiança, ditando, de memória, os principais momentos da extensa jornada pelas Américas. Totalizando pouco mais de cem páginas, estas anotações deveriam servir para que a sua história fosse divulgada às gerações vindouras e não caísse no esquecimento. Vaidade do eremita? Certamente, mas não era incomum missionários escreverem sobre suas vidas relatando feitos extraordinários para terem seus nomes para sempre lembrados. Contudo, os manuscritos tiveram um percurso diferente daquele pensado pelo eremita, não alcançando a quantidade de leitores que o autor tinha em mente. Por muitas décadas os papéis ficaram guardados como relíquia por uma família do Novo México; depois, passaram de mão em mão até serem declarados desaparecidos por pesquisadores da atualidade. Felizmente, há uma cópia feita em 1925, que utilizo quase em sua totalidade no último capítulo do livro: O EREMITA DAS AMÉRICAS



Editora da UFSM, 2014. Lançamento: 30 de abril de 2014, na Feira do Livro de Santa Maria
Passados exatos 155 anos da morte do eremita João Maria de Agostini - fato ocorrido em 17 de abril de 1869, nos longínquos desertos do Novo México -, quero prestar essa singela homenagem a quem considero um admirável sujeito. Se os manuscritos estão momentaneamente desaparecidos, aí está o livro para cumprir com o objetivo do autor morto há um século e meio.

PS: Ok, eu sei que o livro e os manuscritos têm funções diferentes, destinados a públicos distintos, visando atender demandas completamente opostas. Mas não poderia deixar de aproveitar o momento.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

1869-2013: 154 ANOS DO MARTÍRIO DO EREMITA


Na cidade de Santa Fé, no Novo México (EUA), o jornal The Rio Grande Republican, do dia 30 de junho de 1869, publicava a seguinte notícia: “Índios cometem depredações perto da vila de Las Cruces”, acrescentando a nota: “Abril, 17, eremita italiano é assassinado nas Montanhas dos Órgãos, no condado de Dona Ana”. Investigações e prisões foram feitas, mas o culpado não foi encontrado. O assassinato de Juan Maria de Agostini, o eremita italiano, fez parte de uma lista de crimes jamais solucionados do Condado de Dona Ana, sul do Novo México.

Verdadeiro drama de “fé, romance, coragem, caridade e martírio da vida de um eremita,” a morte do italiano causou grande comoção entre os moradores do sul do Novo México. O corpo de Juan Maria de Agostini foi enterrado no San Albino Cemetery, em Mesilla, onde se encontra até hoje ao lado de jazigos que guardam os restos mortais de pioneiros que desbravaram a região no século XIX. Seus admiradores escolheram um epitáfio simples, escrito em espanhol, que resume perfeitamente o que foi a vida de um homem que dedicou quase toda sua existência às causas de Deus: “Juan Maria Agostini - Justiniani, eremita do Velho e do Novo Mundo. Morreu no dia 17 de abril de 1869, aos 69 anos de idade, dos quais 49 anos como eremita.” A lápide original foi substituída em 1949, trocando-se o epitáfio.


 "Quero servir a Deus nos mais terríveis desertos do mundo até o dia de minha morte" - assim declarou Agostini ao se tornar eremita, ainda na Itália, em 1827. A promessa foi cumprida.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O SANTO DA DISCÓRDIA

Festa do Campestre, Santa Maria (início do século XX)
A foto acima mostra um dos momentos da Festa de Santo Antão, no Campestre, interior de Santa Maria. O santo carregado pelos fiéis é o que foi construído pelo monge italiano João Maria de Agostini em 1848 - segundo a minha hipótese, como autorretrato. A imagem de Santo Antão foi destruída por um incêndio em 1951, junto com a ermida no alto do cerro. Em seu lugar foi feita uma réplica, cópia que respeitou as características originais (foto abaixo) segundo afirmou o iminente historiador santa-mariense Romeu Beltrão.

Réplica da imagem original de Santo Antão, feita em 1951.
No interior da igreja do Campestre está outra representação de Santo Antão, de acordo com a imagem clássica difundida pela Igreja Católica: homem idoso, barbas grisalhas, segurando um bastão com sino na ponta e Bíblia na mão direita. Está ladeado por um porco (animal de muitos significados na tradição católica). Duas imagens para um só santo....

No último domingo (dia 20 de janeiro de 2013), alguns moradores do Campestre disseram que a imagem original trazida (ou construída) pelo monge Agostini havia sido "roubada" por volta de 1940 e levada para a comunidade de Santo Antão, distrito de Júlio de Castilhos, distante do Campestre 30 km. Perturbado por esta dúvida, parti para o tal distrito e me deparei  com a seguinte representação do santo:
Santo Antão, distrito de Santo Antão (Júlio de Castilhos/RS)
Outro comentário dos moradores do Campestre é que o santo "roubado" tinha uma abertura nas costas, talvez para guardar chaves ou dinheiro de santo Antão. Como se pode notar na foto abaixo, não há abertura alguma, o que sugere alguma confusão nos depoimentos. 
Verani da Rosa observa enquanto fotografo o santo
 Os habitantes do distrito de Santo Antão, em Júlio de Castilhos, nada sabem sobre esta história de "santo roubado". Segundo a versão que pude alcançar ouvindo as pessoas do lugar, quem doou a imagem foi o sr. Salvador da Rosa Neto, fervoroso devoto de santo Antão, por volta de 1940. Salvador da Rosa Neto (ex-vereador em Júlio de Castilhos) era neto (desculpem a redundância) de Salvador da Rosa Garcia, ninguém mais ninguém menos que o primeiro procurador de santo Antão no Campestre, nomeado diretamente pelo monge João Maria de Agostini em 1848. Ou seja, a devoção a santo Antão passou de geração em geração e fez da família Rosa uma das mais prestigiadas da região.

 Acontece que com a chegada de imigrantes italianos no final do século XIX esta história mudou. Os italianos e seus descendentes passaram a administrar a capela, a ermida e a romaria do Campestre, relegando os antigos moradores a papéis secundários. Não por nada que a família Rosa mudou-se do lugar indo habitar o Rincão dos Mellos, interior de Júlio de Castilhos, já no ano de 1890. As rivalidades entre os "brasileiros" e os italianos fez com que a devoção a santo Antão se espalhasse pela região e não se restringisse tão somente ao Campestre.

O sr. Salvador da Rosa Neto, acompanhado por extensa família, frequentou durante décadas a romaria no cerro do Campestre, até que introduziu a devoção (com imagem) em 1940 no povoado em que morava, passando a se chamar comunidade de Santo Antão (distrito de Júlio de Castilhos). Dos mais velhos moradores do distrito de Santo Antão ouvi que sempre fora aquela a estátua do santo, nunca houve outra. Portanto, não parece ter havido "roubo" segundo a versão perpetuada no Campestre, talvez rivalidade entre antigos e novos devotos do santo. E se aconteceram disputas, foi pela imagem "clássica" de santo Antão e não pela estátua feita pelo monge em 1848. 

PS: Ah, antes que eu esqueça: ao levantar estas polêmicas, nunca tive a intenção de tentar mudar a fé de ninguém, só permitir às pessoas o acesso às informações. Agora, o que elas fazem com estas informações é outro assunto.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

AUTORRETRATO DO MONGE

Antão do Campestre de Santa Maria, RS.
Acredita-se que a imagem que se encontra na pequena ermida no alto do Cerro do Campestre, próximo ao município de Santa Maria (RS), é de santo Antão Abade, trazida ali pelo monge João Maria de Agostini em 1848. Contudo, há uma dúvida perturbadora: seria mesmo aquela estátua uma representação do santo anacoreta que viveu no Egito entre os séculos III e IV da era Cristã?


 

Antão segundo iconografia católica

 Na iconografia da Igreja Católica, santo Antão (que na Itália é chamado de santo Antônio, o Grande, para diferenciar do franciscano santo Antônio de Pádua) geralmente é representado como um idoso, de longas barbas brancas, carregando cajado de peregrino (bordão em forma de "T"), Bíblia que emana o fogo da sabedoria divina tendo a seus pés um porco (às vezes um javali). Reparem na imagem ao lado.






Agostini, com 60 anos de idade.
O monge João Maria de Agostini era italiano, portanto, devia conhecer as inúmeras representações existentes do santo nas igrejas da Itália. Mas no Campestre das "águas santas" resolveu criar uma estátua inovadora, ou pelo menos não usual na iconografia católica: de tonsura à moda franciscana, Antão aparenta não ter mais de 50 anos, pois está de barbas e cabelos escuros. Faltam a Bíblia, o porco, o bordão e o sino. Mais parece um frade franciscano do que o próprio Antão. Ao que tudo indica, na falta de um modelo, o próprio Agostini deve ter servido de inspiração para a fabricação da estátua, portanto, Antão do Campestre seria o autorretrato do monge italiano.



Antão, em pose clássica
Para encerrar, também é possível supor que a estátua de santo Antão (a atual é uma réplica feita após um incêndio na ermida em 1951) foi fabricada por João Maria de Agostini, hábil artesão de imagens santas segundo testemunhos que o conheceram. Então, toda vez que olharmos para santo Antão no Campestre, talvez vejamos ali o autorretrato de outro santo, o popular Monge João Maria.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

OS MILAGRES DAS ÁGUAS E O MARTÍRIO DO SANTO

A partir de maio de 1848, os jornais do Rio Grande do Sul começaram a dar cobertura a um "extraordinário" evento, publicando em suas páginas diversas notícias sobre os milagres da fonte descoberta por um monge estrangeiro. Durante meses deram voz aos devotos, divulgando o nome, o local de origem, a idade, em alguns casos a cor, as moléstias e quantos banhos eram necessários para que o doente se restabelecesse. Havia gente de todas as partes da província: Santa Maria, Cachoeira, Porto Alegre, Santa Bárbara, Caçapava, Camaquã, São Gabriel, Santana do Livramento, Lavras, Santo Antônio da Patrulha, Piratini, Taquari, etc.; bem como do Estado Oriental (Uruguai). A descrição era assim: “Rufino Teixeira de Andrade, branco, morador em Santa Bárbara, 22 anos. Sofria há 8 meses de uma afecção interna do lado direito. Chegou a 13 de maio, e no dia 16 estava perfeitamente bom.” Ou ainda: "Tenente Coronel João Gonçalves Padilha, 65 anos, morador na Boa-Vista, distrito de São Martinho. Incômodo do peito, grande tosse, e quase privação do andar, pelas dores nas coxas e pés. Está que não sente mais nada". As enfermidades eram variadas: asma, problemas nos olhos, ataques nervosos, inchação de pés e pernas, paralisias dos membros, reumatismos, fraturas e quebraduras, “facada no lado esquerdo abaixo do coração” que redundava em problemas respiratórios, cólicas, dores de estômago, inflamação no ventre, tonturas, feridas pelo corpo, “mal de São Lázaro” e “fístula em lugar perigoso sobre o ânus”. Vê-se que o local das Águas Santas, ou Fonte do Monge, atraía gente com diversos problemas de saúde.






Cão refrescando-se na Fonte do Monge, no Cerro do Campestre. Atualmente, a fonte não é mais procurada pelos devotos, pois a memória dos milagres cedeu espaço à Romaria de Santo Antão.





A quantidade de pessoas frequentando o lugar chamou a atenção não só de jornalistas, padres, médicos e políticos, mas também do presidente da província sul-rio-grandense, o general Franscisco José de Souza Soares de Andréa. A primeira atitude do presidente foi nomear um médico especialista capaz de investigar se as águas do Campestre eram de fato medicinais ou tudo não passava de "exagero" do povo. A segunda ação foi tentar conhecer o tal monge estrangeiro, saber suas intenções e para quem trabalhava. Para tanto, o general presidente ordenou que o trouxessem para fazer-lhe um interrogatório. Em outubro de 1848, João Maria de Agostini estava no Cerro do Botucaraí, vivendo como eremita, mas também evangelizando e tratando de doentes através de suas práticas de cura. No amanhacer do dia 17 de outubro, uma pequena escolta vinda de Rio Pardo dava ordem de prisão ao monge. Como testemunhas estavam milhares de devotos - muitos eram escravos fugidos que viviam em Quilombos nos matos da Serra Geral próximo ao Botucaraí - presenciando a captura do santo. Quase ocorreu uma tragédia, pois quiseram libertar o monge da mãos dos guardas. Agostini, contudo, tratou de acalmar a todos, aconselhando que o deixassem partir para o martírio, "a fim de voltar depois mais santo e mais milagroso".

 


Cerro do Botucaraí, local da prisão do monge Agostini, em 17 de outubro de 1848. Os habitantes do município de Candelária (RS) chamam-no de Cerro do Monge.